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domingo, 6 de setembro de 2015
Sobre Felicianos, Datenas, Russomanos e o fracasso das oposições
Feliciano é um político sectário - não porque é evangélico - de um partido nanico cristão. Datena é um ex-locutor de futebol, apresentador do pior programa policialesco brasileiro e que, portanto, surfa na onda da histeria anti-política que assola este país. Russomano, o quase prefeito das últimas eleições, quer mostrar que consertou o telhado de vidro que o catapultou do segundo turno do último pleito para alcaide.
Sozinhos, estes personagens não teriam importância, mas juntos, são os candidatos 'anti-haddad' sonhados pela oposição ao governo petista paulistano. Do mesmo lado oposicionista, tempos a ex-petista Marta Suplicy e o ex-Sabesp Andrea Matarazzo (que tem a unção de FHC, candidato derrotado à prefeitura da maior cidade do país).
Ajudando este estamento oposicionista, a mídia procura pelo em ovo para desabonar o governo do petista Fernando Haddad e manter seus índices de aprovação baixíssimos, como é de praxe para qualquer prefeito progressista da cidade.
Mas, ao traduzir este possível embate eleitoral para o plano nacional, é possível ver o fracasso das oposições contra o cambaleante governo federal petista: em mais de uma década, as oposições não conseguiram trazer novos nomes e tampouco conseguiram construir uma nova agenda para o país.
É constragedor, já que a única novidade na política oposicionista são os grupelhos de direita e ultraliberais com teses anacrônicas e desencontradas sobre o papel do Estado, sobre liberdade de expressão baseadas em suas análises históricas distorcidas.
Em tempos de 'impeachômetro', criado por um blog 'progressita' que mede a subida e descida do apoio político e popular à tese da destituição da presidente Dilma, este é um fato desalentador para o futuro do país.
O PT com Dilma - e até com Lula - não consegue mais se apoiar no capital político de crescimento econômico, distribuição de renda, reafirmação de direitos, política internacional soberana entre outras mudanças profundas que ajudaram a promover na sociedade brasileira.
Dizem alguns observadores que ciclo do Lulo-petismo acabou e um novo ciclo político-econômico precisa surgir. De fato, um novo ciclo precisa ser criado, mas mais pelo fracasso do nosso sistema político do que pelo suposto fracasso do chamado Lulo-petismo.
Mas, afundadas em acusações sem fim sobre o financiamento de campanha, as lideranças do PT mal conseguem convencer seus próprios eleitores que têm alguma visão de futuro para a nação.
Na mesma semana da criação da Frente Brasil Popular, um movimento de esquerda - formado por sindicatos e movimentos sociais, entre eles os poderosos MST e MSTS - a procuradoria geral da república, liderada pelo reconduzido Janot, abre investigação sobre os próceres da república para saber se o dinheiro das campanhas presidenciais petistas de 2006 a 2014 (só as campanhas petisras) teve origem no esquema de propinas montado na Petrobras.
A tese principal é que as doações legais tinham como base a aprovação pela diretoria da estatal de crimes como superfaturamento e formação de cartel na contratação de grande obras. Assim, a doação para o partido político no poder era fruto de achaques baseados no trâfego de influência política dos diretores apadrinhados.
No fundo, esta acusação é o início do melancólico final de todo um esquema político-econômico de controle do poder pelo sistema capitalista nacional.
Não há mais saída: em tempos de redes sociais e crescente digitalização da sociedade, o jeito de fazer política terá que mudar.
Certos que serão os herdeiros do poder após a derrota do PT - tanto nas eleições em 2018 ou em um eventual impedimento da chapa da presidente Dilma - as oposições esperam nos corredores chutando e guspindo no que acham ser o cachorro morto das esquerdas, lideradas pelo PT.
Mas, apesar do gritos de injustiça dos acusados (que apontam o dedo para a peserguição), a fúria policialesca-jurídica-moralista-midiática que agora se torna contra o partido no poder com certeza se tornará contra a oposição de esquerda, de centro ou de direita que assuma o poder, porque estamos falando da criminalização da política.
Nos mais de 5 mil municípios e nos 27 estados país afora, sempre se encontrarão correlações estatísticas entre as doações de campanha e contratos dos doadores com o setor público. A partir daí, as ligações pessoais por meio de reuniões, telefonemas, e-mails e até viagens entre lideranças políticas e empresariais se encaixarão como uma luva na tese de lavagem de dinheiro de contratos expúrios e não transparentes.
E não só no Brasil. Nos Estados Unidos - onde a atividade de Lobby é legalmente reconhecida - , na União Européia ou no Japão a correlação entre o dinheiro e contratos com grandes grupos são comuns. E, de fato, foram muitas das origens dos grandes escândalos políticos na história do século XX e XXI.
Mas, ficar apenas nas constatação de que a política moderna nas grandes democrácias é movida a dinheiro, não nos ajuda dar um pequeno passo sequer em direção à construção de um novo futuro.
Cá entre nós, quem realmente se surpreende - a não ser os moralistas e totalitários de plantão - que empresas e grupos econômicos olham doações de campanha como investimentos? No tucanistão de São Paulo ou na república Lulo-petista, a história se repete.
E aí, quando as oposições deveriam aproveitar o enfraquecimento político do governo e o seu próprio ostracismo do poder central no país para debater, procurar e formar novas teses e lideranças, tudo é jogado no ar na esperança de que a maioria da população vai acreditar que eles serão a redenção.
O sinal mais forte disso é o rol de pré-candidatos que se apresentam para a prefeitura de São Paulo. Feliciano, alçado à notoriedade pelo seu arraigado preconceito contra todos os não cristãos; Datena com seu tom histriônico anacronicamente pedindo para a polícia - que ele não controlará se eleito - para sumariamente assassinar supostos bandidos; e o bom moço do liberalismo do Morumbi, Russomano, vociferando contra as pequenas empresas - e esquecendo as grandes doadoras para suas campanhas - olha para cidadãos apenas como consumidores.
Um atavismo político inacreditável.
À espreita deste não debate político, uma direita totalitária pronta para destruir o Estado, atacar minorias e todos os direitos sociais conquistados pelos brasileiros nas últimas décadas.
As bandeiras vermelhas, alçadas contra o ajuste fiscal do governo que elegeram e contra o eterno imperlialismo ianqui que quer destruir a Petrobras, também têm sua dose de anacronismo histórico, mas estes estão mais perto de um caminho futuro para o Brasil.
Firme entre as propostas da Frente Brasil Popular está a ideia de uma assembleia para fazer uma profunda reforma política. Uma assembleia popular aliada a um debate nacional intenso sobre o tema.
No fulcro desta proposta está a reeducação política da nação e, principalmente, dos nossos jovens.
Desde a redemocratização, nossos jovens foram deseducados políticamente - de um lado pelo desmandos dos políticos e empresários e do outro pela constante campanha da mídia. Mas, principalmente, pela falta de coragem dos democratas de garantir a investigação e punição dos crimes cometidos durante a ditadura e a construção de um sistema democrático de comunicação.
Acreditavam que a conciliação, sem confrontos, resolveria tudo. Acreditavam em Papai Noel.
Muitos destes jovens hoje são adultos e pais de famílias e outros agora entram na vida política nacional, com direito a votar com 16 anos. E eles ignoram os desmandos do passado.
O debate sobre o que é política e como se faz política é de extrema urgência. Precisamos que nossa política ressurja como um Fênix das cinzas da velha política.
A população Brasileira precisa, de fato, aprender o que é representação, pacto federativo, estado de bem estar social, Estado de direito e proteção de minorias. Precisam conhecer a fundo a nossa história não tão republicana para entender que o que existe de liberdade e direitos hoje é fruto de sacrifício de muitos que lutaram e acreditaram num futuro.
Os nossos jovens precisam entender os sistemas de pesos e contrapesos do sistema tripartide de poder para daí começar a debater os novos sistemas de representação e participação política, utilizando mecanismos digitais aos quais estão acostumados.
Não podemos deixar que ideias antigas e conceitos anacrônicos moldem a nova política que temos que construir. Temos que canalisar a inovação social acumulada na sociedade para podermos transformar a terra arrasada na política.
Felicianos, Datenas e Russomanos sempre vão aparecer, e podem sempre ser eleitos, mas só com uma reforma política abrangente, popular e inovadora que eles não serão usados pelas fracassadas oposições e pela destruída situação como um Cavalo de Tróia para alçar mais um salvador da pátria ao poder.
Não somos nem almas a espera de uma slavação, nem anjos vingadores e nem consumidores frustrados, como querem Feliciano, Datena e Russomano.
Somo cidadãos.
terça-feira, 18 de agosto de 2015
Manifestantes da direita não ouviram o recado dos que ficaram em casa
Ficou no tamanho certo, a manifestação da direita do dia 16. Esta foi, em resumo, a minha resposta aos meus filhos que, curiosos, queriam saber o que eu tinha achado das manifestações.
Pelo que li, talvez umas 200 mil pessoas no país inteiro foram às ruas pedir alguma coisa como o fim do PT, impeachment e/ou prisão da presidente, 'fora' Lula (não sei de onde), fim das esquerdas, volta de um regime militar e outras atrocidades contra a língua portuguesa - a mais fina Flor do Lácio - e contra a nossa história, que não ouso reproduzir.
Para meus filhos - um, que está no início da adolescência e outro, no final da infância - é tudo muito curioso, pois no ambiente em que vivem na escola ou entre amigos não há dissidência: é um blá-blá-blá contra a Dilma e PT e políticos e tudo que está aí.
Um deles frequenta uma escola particular na Zona Norte de São Paulo. O outro, está em uma escola técnica pública do ensino médio. Ambas boas escolas, mas que refletem uma predominância de opiniões apolíticas que circulam na mídia e nas redes sociais, com críticas rasas ao que está acontecendo.
Por isso, eles ficam fascinados quando eu me recuso a xingar os manifestantes ou governos com os quais não concordo, preferindo analisar a situação do ponto de vista histórico, social e político.
O que intrigou meus filhos foi o fato de muitos nas ruas pedirem intervenção militar. No dia a dia deles não há como entender o que é isso a não ser quando eu ou parte da família deles explicam o que é uma intervenção militar e os resultados da última que o país sofreu em 1964.
No entanto, eles têm consciência que estão vivendo dias históricos, mas acharam curioso pedir intervenção militar em país que vive a mais plena democracia.
Mas, como disse, a 'grande manifestação' ficou de bom tamanho, ou seja, tamanho suficiente para ver a alienação histórica e social de uma minoria histriônica. Não vou brigar com números, pois eles já não são importantes e nem quero aqui fazer análises conclusivas. Quero apenas publicar impressões pessoais.
Portanto, o que, na verdade, importa é o recado de grupos que não conseguem mais mobilizar além de um teto dezenas de milhares de pessoas pois seu radicalismo vazio de propostas não atrai a maioria.
Se de um lado falta à presidenta Dilma a estatura de líder político capaz de representar os sonhos de uma nação e pôr um ponto final nesta brincadeira, do outro - o dos organizadores da manifestação - também não há líderes que explicam qual é a visão deles para o futuro da nação.
O fim da corrupção perpetrada por alguns, tão repudiada por eles, é um sonho, mas eles não explicam como vão fazer isso.
Os animadores nos carros de som neste final de semana ficaram apenas repetindo o que disse o ex-candidato do PSDB, Aécio Neves, em plena campanha eleitoral no ano passado, que bastava tirar o PT do poder para tudo melhorar.
Uma indignação mais do que seletiva.
Esta 'solução' não convence uma maioria que, apesar de estar desiludida com o governo, tem experiência de 30 anos de democracia e que, a cada dois anos, se acostumou participar de um debate - mesmo que mínimo - sobre propostas para o futuro da cidade e do país.
Pessoas que já elegeram um governante e depois outro que estava na oposição e sabem que terão a chance de eleger mais outro ano que vem e daqui a quatro anos.
A mensagem dos que não foram à rua foi mais forte do que o recado do raquítico grupo de radicais: sem propostas para o país, não há apoio.
Talvez uma luz sobre o que está acontecendo vem de uma pesquisa recente mostrando que 71% acreditam que a oposição quer o impeachment puramente por interesses próprios.
Mas, para muitos, a troca da mandatária não seria seis por meia dúzia, seria sim trocar o certo pelo incerto e aprofundar de vez a crise política que já está esgotando a paciência da população que começa também a enfrentar uma crise econômica.
E todos sabem: sem o fim da crise política, a crise econômica se alonga e se aprofunda, pois sabem que só um mínimo de governabilidade dará a chance para o país sair desta.
É claro que houve uma mudança de posição entre os líderes empresariais e da mídia contra esta crescente desestabilização econômica para criar este clima, mas é apenas o outro lado da mesma moeda.
Os 'Aloprados' On-line, o MBL, os #vemprarua e outros grupelhos não entendem o recado dos que ficaram em casa: lhes sobra arrogância e lhes falta densidade política para compreender que não têm credibilidade política para mover massas além do seu próprio deslumbre pela notoriedade que conquistaram nas redes como Facebook e WhatsApp.
Nas ruas e na política real, o jogo é outro. No asfalto, o povo não é bobo.
E por isso mesmo que nada está ganho para o governo.
O movimento preocupante a favor do impeachment, aquele que goza de apoio dentro do próprio estamento politico e jurídico, ainda está vivo, apesar de não estar legitimado pelas ruas.
Há muito que fazer no campo político, mas, cada vez mais, os políticos percebem que precisam buscar o mínimo de governabilidade para que as conquistas sociais e políticas das últimas décadas - inclusive as deles de serem eleitos - não sejam jogadas fora e, com elas, qualquer possibilidade de continuar na vida política sem ameaças e sobressaltos.
O fascismo está, de fato, batendo às portas. Este é o outro recado destas manifestações: os radicais se mobilizam pelo silêncio dos outros.
Finalmente, acredito que a única conclusão contudente que podemos tirar do show de horrores que vimos neste final de semana é que direita está aí, forte, se alimentando da decepção das pessoas.
A semana começa, etretanto, com uma luz no final de túnel que há ainda um pouco de sanidade entre as lideranças políticas e empresariais de deste país que já perceberam que o povo não cai facilmente em ladainhas.
Trocando em miúdos, sem ter a legitimidade de uma eleição, o povo não aceitará troca na liderança do país. O brasileiro ainda tem muito a perder.
Pelo que li, talvez umas 200 mil pessoas no país inteiro foram às ruas pedir alguma coisa como o fim do PT, impeachment e/ou prisão da presidente, 'fora' Lula (não sei de onde), fim das esquerdas, volta de um regime militar e outras atrocidades contra a língua portuguesa - a mais fina Flor do Lácio - e contra a nossa história, que não ouso reproduzir.
Para meus filhos - um, que está no início da adolescência e outro, no final da infância - é tudo muito curioso, pois no ambiente em que vivem na escola ou entre amigos não há dissidência: é um blá-blá-blá contra a Dilma e PT e políticos e tudo que está aí.
Um deles frequenta uma escola particular na Zona Norte de São Paulo. O outro, está em uma escola técnica pública do ensino médio. Ambas boas escolas, mas que refletem uma predominância de opiniões apolíticas que circulam na mídia e nas redes sociais, com críticas rasas ao que está acontecendo.
Por isso, eles ficam fascinados quando eu me recuso a xingar os manifestantes ou governos com os quais não concordo, preferindo analisar a situação do ponto de vista histórico, social e político.
O que intrigou meus filhos foi o fato de muitos nas ruas pedirem intervenção militar. No dia a dia deles não há como entender o que é isso a não ser quando eu ou parte da família deles explicam o que é uma intervenção militar e os resultados da última que o país sofreu em 1964.
No entanto, eles têm consciência que estão vivendo dias históricos, mas acharam curioso pedir intervenção militar em país que vive a mais plena democracia.
Mas, como disse, a 'grande manifestação' ficou de bom tamanho, ou seja, tamanho suficiente para ver a alienação histórica e social de uma minoria histriônica. Não vou brigar com números, pois eles já não são importantes e nem quero aqui fazer análises conclusivas. Quero apenas publicar impressões pessoais.
Portanto, o que, na verdade, importa é o recado de grupos que não conseguem mais mobilizar além de um teto dezenas de milhares de pessoas pois seu radicalismo vazio de propostas não atrai a maioria.
Se de um lado falta à presidenta Dilma a estatura de líder político capaz de representar os sonhos de uma nação e pôr um ponto final nesta brincadeira, do outro - o dos organizadores da manifestação - também não há líderes que explicam qual é a visão deles para o futuro da nação.
O fim da corrupção perpetrada por alguns, tão repudiada por eles, é um sonho, mas eles não explicam como vão fazer isso.
Os animadores nos carros de som neste final de semana ficaram apenas repetindo o que disse o ex-candidato do PSDB, Aécio Neves, em plena campanha eleitoral no ano passado, que bastava tirar o PT do poder para tudo melhorar.
Uma indignação mais do que seletiva.
Esta 'solução' não convence uma maioria que, apesar de estar desiludida com o governo, tem experiência de 30 anos de democracia e que, a cada dois anos, se acostumou participar de um debate - mesmo que mínimo - sobre propostas para o futuro da cidade e do país.
Pessoas que já elegeram um governante e depois outro que estava na oposição e sabem que terão a chance de eleger mais outro ano que vem e daqui a quatro anos.
A mensagem dos que não foram à rua foi mais forte do que o recado do raquítico grupo de radicais: sem propostas para o país, não há apoio.
Talvez uma luz sobre o que está acontecendo vem de uma pesquisa recente mostrando que 71% acreditam que a oposição quer o impeachment puramente por interesses próprios.
Mas, para muitos, a troca da mandatária não seria seis por meia dúzia, seria sim trocar o certo pelo incerto e aprofundar de vez a crise política que já está esgotando a paciência da população que começa também a enfrentar uma crise econômica.
E todos sabem: sem o fim da crise política, a crise econômica se alonga e se aprofunda, pois sabem que só um mínimo de governabilidade dará a chance para o país sair desta.
É claro que houve uma mudança de posição entre os líderes empresariais e da mídia contra esta crescente desestabilização econômica para criar este clima, mas é apenas o outro lado da mesma moeda.
Os 'Aloprados' On-line, o MBL, os #vemprarua e outros grupelhos não entendem o recado dos que ficaram em casa: lhes sobra arrogância e lhes falta densidade política para compreender que não têm credibilidade política para mover massas além do seu próprio deslumbre pela notoriedade que conquistaram nas redes como Facebook e WhatsApp.
Nas ruas e na política real, o jogo é outro. No asfalto, o povo não é bobo.
E por isso mesmo que nada está ganho para o governo.
O movimento preocupante a favor do impeachment, aquele que goza de apoio dentro do próprio estamento politico e jurídico, ainda está vivo, apesar de não estar legitimado pelas ruas.
Há muito que fazer no campo político, mas, cada vez mais, os políticos percebem que precisam buscar o mínimo de governabilidade para que as conquistas sociais e políticas das últimas décadas - inclusive as deles de serem eleitos - não sejam jogadas fora e, com elas, qualquer possibilidade de continuar na vida política sem ameaças e sobressaltos.
O fascismo está, de fato, batendo às portas. Este é o outro recado destas manifestações: os radicais se mobilizam pelo silêncio dos outros.
Finalmente, acredito que a única conclusão contudente que podemos tirar do show de horrores que vimos neste final de semana é que direita está aí, forte, se alimentando da decepção das pessoas.
A semana começa, etretanto, com uma luz no final de túnel que há ainda um pouco de sanidade entre as lideranças políticas e empresariais de deste país que já perceberam que o povo não cai facilmente em ladainhas.
Trocando em miúdos, sem ter a legitimidade de uma eleição, o povo não aceitará troca na liderança do país. O brasileiro ainda tem muito a perder.
sexta-feira, 26 de junho de 2015
Vai chegar o dia
Shakespeare, ou melhor, seus personagens, têm uma profunda compreensão do drama humano. Eles podiam olhar no longo prazo, agir no curto e revisitar a história para entender o presente.
Um dos meus personagens shakespirianos favoritos - aí não sei se me apaixono pela beleza do texto ou pela lucidez do vilão - é Ricardo III.
Bem no começo da peça, ele mistura a situação política com seus anseios pessoais e, claro, com sua desmesurada ambição. O seu lugar, afirma ele, não é ser um coadjudante da história, mas sim seu principal protagonista.
Mas ele via, e fez acontecer, que outros tempos virão, pois percebida o tempo da história:
"Now is the winter of our discontent
made glorious summer by this sun of York.
And all the clouds that lour'd upon our house
In the deep bosom of the ocean buried.
Now are our brows bound with victorious wreaths;
Our bruised arms hung up for monuments;
Our stern alarums changed to merry meetings,
Our dreadful marches to delightful measures.
Grim-visaged war hath smooth'd his wrinkled front;
And now, instead of mounting barded steeds
To fright the souls of fearful adversaries,
made glorious summer by this sun of York.
And all the clouds that lour'd upon our house
In the deep bosom of the ocean buried.
Now are our brows bound with victorious wreaths;
Our bruised arms hung up for monuments;
Our stern alarums changed to merry meetings,
Our dreadful marches to delightful measures.
Grim-visaged war hath smooth'd his wrinkled front;
And now, instead of mounting barded steeds
To fright the souls of fearful adversaries,
He capers nimbly in a lady's chamber
To the lascivious pleasing of a lute."
To the lascivious pleasing of a lute."
(O inverno do nosso descontentamento foi convertidoagora em glorioso verão por este sol de York, e todas as nuvens que ameaçavam a nossa casa estão enterradas no mais interno fundo do oceano. Agora as nossas frontes estão coroadas depalmas gloriosas. As nossas armas rompidas suspensas como troféus, os nossos feros alarmes mudaram-se em encontros aprazíveis, as nossas hórridas marchas em compassos deleitosos, aguerra de rosto sombrio amaciou a sua fronte enrugada. E agora, em vez de montar cavalos armados para amedrontar as almas dos temíveis adversários, pula como um potro nos aposentos de uma dama ao som lascivo e ameno do alaúde.)
Esta longa fala serve apenas como introdução para explicar que ele trama algo e que não está satisfeito com o que acontece. Ao mesmo tempo, critica a sensação de tranquilidade do reino, avisando que nem tudo está sob controle, como sonham os poderosos.
No Brasil de hoje, vivemos a mais absoluta incapacidade de ver o futuro. Olhamos para o presente como se fosse o todo, como se o passado não tivesse mais importância. Como se não tivéssemos futuro.
Neste presente, toda a nação foi tomada por uma sensação de desgosto e de derrota. Nada funciona ou funcionou como deveria. Nada era o que pensávamos. O que nos dava destaque, agora está sendo vilmente atacado. O que conquistamos, hoje está friamente escondido. O que nos dava esperança, hoje está enterrado debaixo de acusações mil e de um vai e vem policialesco na república judiciária que deixamos criar.
Como as armas dos dias de batalha citadas na peça, nosso glorioso passado recente está enterrado a mil léguas debaixo de um oceano falso de lama.
Mas isto, como bem percebeu o Duque de Gloucester (o futuro Ricardo III), não levou em conta o descontentamento de alguns.
O Brasil não é de brincadeira, não é terra de ninguém e nem o pior lugar do mundo. Conquistamos muito nestas últimas quatro décadas, desde o fim da ditadura. Os que querem voltar ao passado, serão derrotados, pois não haverá trégua para aqueles que quiserem desafiar as conquistas.
Vejo em torno de mim uma vontade de fazer as coisas certas. Empreendedores sociais que buscam saída, movimentos populares que buscam aprofundar conquistas, empresários com a gana de investir e inovar, todos agindo, incansávelmente, mesmo com o orgulho ferido por um mundo faz de conta do achaque e derrotismo.
Este mundo que brada, hipocritamente, sempre contra a corrupção alheia como desculpa para o retrocesso.
O dia virá, sim, quando estes tempos sombríos passarão, e os que hoje gozam deste poder enganador, cavalgando manchetes alucinadas sobre desmandos da república, vão perceber que sua calavagada era apenas em direção ao abismo.
Vamos olhar para trás e ver que chegamos perto, muito perto, de entregar todas as conquistas, mas, vamos nos dar conta, que isso nunca poderia acontecer, porque existem muitos que não são nem coniventes e nem estão contentes com o que acontece.
Vamos perceber que sempre avançamos nos direitos, na economia, no empreendedorismo e na sociedade, nos afirmando como país soberano com o qual sonharam alguns nestes mais de 100 anos de república.
E nesse dia, eu, entre milhões de brasileiros, soltarei um profundo suspiro de alívio pelos tempos que sabíamos que iriam passar.
O dia virá quando poderemos, enfim, gozar de tudo que consquistamos diante de um mundo que não conseque encontrar soluções e que quer nos arrastar para o abismo.
Hoje, somos o vilões por acreditar no que foi conquistado, por entender o passado e por ousar sonhar com um futuro. Amanhã, seremos os protagonistas que, mesmo na adversidade, continuamos a acreditar e a agir.
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