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terça-feira, 18 de agosto de 2015

Manifestantes da direita não ouviram o recado dos que ficaram em casa

Ficou no tamanho certo, a manifestação da direita do dia 16. Esta foi, em resumo, a minha resposta aos meus filhos que, curiosos, queriam saber o que eu tinha achado das manifestações.

Pelo que li, talvez umas 200 mil pessoas no país inteiro foram às ruas pedir alguma coisa como o fim do PT, impeachment e/ou prisão da presidente, 'fora' Lula (não sei de onde), fim das esquerdas, volta de um regime militar e outras atrocidades contra a língua portuguesa - a mais fina Flor do Lácio -  e contra a nossa história, que não ouso reproduzir.

Para meus filhos - um, que está no início da adolescência e outro, no final da infância - é tudo muito curioso, pois no ambiente em que vivem na escola ou entre amigos não há dissidência: é um blá-blá-blá contra a Dilma e PT e políticos e tudo que está aí.

Um deles frequenta uma escola particular na Zona Norte de São Paulo. O outro, está em uma escola técnica pública do ensino médio. Ambas boas escolas, mas que refletem uma predominância de opiniões apolíticas que circulam na mídia e nas redes sociais, com críticas rasas ao que está acontecendo.

Por isso, eles ficam fascinados quando eu me recuso a xingar os manifestantes ou governos com os quais não concordo, preferindo analisar a situação do ponto de vista histórico, social e político.

O que intrigou meus filhos foi o fato de muitos nas ruas pedirem intervenção militar. No dia a dia deles não há como entender o que é isso a não ser quando eu ou parte da família deles explicam o que é uma intervenção militar e os resultados da última que o país sofreu em 1964.

No entanto, eles têm consciência que estão vivendo dias históricos, mas acharam curioso pedir intervenção militar em país que vive a mais plena democracia.

Mas, como disse, a 'grande manifestação' ficou de bom tamanho, ou seja, tamanho suficiente para ver a alienação histórica e social de uma minoria histriônica. Não vou brigar com números, pois eles já não são importantes e nem quero aqui fazer análises conclusivas. Quero apenas publicar impressões pessoais.

Portanto, o que, na verdade, importa é o recado de grupos que não conseguem mais mobilizar além de um teto dezenas de milhares de pessoas pois seu radicalismo vazio de propostas não atrai a maioria.

Se de um lado falta à presidenta Dilma a estatura de líder político capaz de representar os sonhos de uma nação e pôr um ponto final nesta brincadeira, do outro - o dos organizadores da manifestação - também não há líderes que explicam qual é a visão deles para o futuro da nação.

O fim da corrupção perpetrada por alguns, tão repudiada por eles, é um sonho, mas eles não explicam como vão fazer isso.
 
Os animadores nos carros de som neste final de semana ficaram apenas repetindo o que disse o ex-candidato do PSDB, Aécio Neves, em plena campanha eleitoral no ano passado, que bastava tirar o PT do poder para tudo melhorar.

Uma indignação mais do que seletiva.

Esta 'solução' não convence uma maioria que, apesar de estar desiludida com o governo, tem experiência de 30 anos de democracia e que, a cada dois anos, se acostumou participar de um debate - mesmo que mínimo - sobre propostas para o futuro da cidade e do país.

Pessoas que já elegeram um governante e depois outro que estava na oposição e sabem que terão a chance de eleger mais outro ano que vem e daqui a quatro anos.

A mensagem dos que não foram à rua foi mais forte do que o recado do raquítico grupo de radicais: sem propostas para o país, não há apoio.

Talvez uma luz sobre o que está acontecendo vem de uma pesquisa recente mostrando que 71% acreditam que a oposição quer o impeachment puramente por interesses próprios.

Mas, para muitos, a troca da mandatária não seria seis por meia dúzia, seria sim trocar o certo pelo incerto e aprofundar de vez a crise política que já está esgotando a paciência da população que começa também a enfrentar uma crise econômica.

E todos sabem: sem o fim da crise política, a crise econômica se alonga e se aprofunda, pois sabem que só um mínimo de governabilidade dará a chance para o país sair desta.

É claro que houve uma mudança de posição entre os líderes empresariais e da mídia contra esta crescente desestabilização econômica para criar este clima, mas é apenas o outro lado da mesma moeda.

Os 'Aloprados' On-line, o MBL, os #vemprarua e outros grupelhos não entendem o recado dos que ficaram em casa: lhes sobra arrogância e lhes falta densidade política para compreender que não têm credibilidade política para mover massas além do seu próprio deslumbre pela notoriedade que conquistaram nas redes como Facebook e WhatsApp.

Nas ruas e na política real, o jogo é outro. No asfalto, o povo não é bobo.

E por isso mesmo que nada está ganho para o governo.

O movimento preocupante a favor do impeachment, aquele que goza de apoio dentro do próprio estamento politico e jurídico, ainda está vivo, apesar de não estar legitimado pelas ruas.

Há muito que fazer no campo político, mas, cada vez mais, os políticos percebem que precisam buscar o mínimo de governabilidade para que as conquistas sociais e políticas das últimas décadas - inclusive as deles de serem eleitos - não sejam jogadas fora e, com elas, qualquer possibilidade de continuar na vida política sem ameaças e sobressaltos.

O fascismo está, de fato, batendo às portas. Este é o outro recado destas manifestações: os radicais se mobilizam pelo silêncio dos outros.

Finalmente, acredito que a única conclusão contudente que podemos tirar do show de horrores que vimos neste final de semana é que direita está aí, forte, se alimentando da decepção das pessoas.

A semana começa, etretanto, com uma luz no final de túnel que há ainda um pouco de sanidade entre as lideranças políticas e empresariais de deste país que já perceberam que o povo não cai facilmente em ladainhas.

Trocando em miúdos, sem ter a legitimidade de uma eleição, o povo não aceitará troca na liderança do país. O brasileiro ainda tem muito a perder.

domingo, 26 de julho de 2015

O barulho dos incovenientes e o silêncio dos culpados


A cidade de São Paulo é um animal estranho. Ela se diz a vanguarda do país e nós, paulistanos, nos orgulhamos de sermos desbravadores e modernos. Mas, sempre que há alguma mudança um pouco mais inteligente, um pouco mais voltada para o futuro com readequação de hábitos, há uma choraderia geral, liderada por uma elite econômica e encampada por matérias editoriaizadas e editoriais propriamente ditos nos jornalões e, finalmente, por meio da OAB ou do Ministério Público, a judicialização.

Foi assim, com os CEUS, foi assim com a taxa do lixo, foi assim com as ciclovias, com as sacolinhas, os corredores de ônibus, o conselho dos cidadãos das subprefeituras, o Uber, a regulamentação do transporte escolar, o IPTU progressivo e a aprovação da regra de solo criado no plano diretor e agora está sendo assim com a redução da velocidade nas pistas das marginais dos rios Pinheiros e Tietê.

Os exemplos vêm aos montes. Nas matérias editorializadas dos - famigerados e abandonados - cadernos de cidade (ah que saudades do Jornal da Tarde ou do Diário Popular, os diários metropolitanos que destruímos...), qualquer medida que olha além do parachoque do carro em frente é duramente combatida.

Os dois exemplos dos últimos meses são reveladores se pararmos um pouco para pensar.

O primeiro, o mais atual, é o caso da redução da velocidade máxima nas marginais. Antes, na pista expressa, o limite era de 90km/hr, hoje é de 70km/hr. A chiaderia está sendo geral.

"Meu deus, andar à 70km/hr nesta reta é quase impossível!", dizem. E aí gritam: "Cadê os estudos???? Cadê o planejamento??? Este prefeito está fazendo de tudo para atrapalhar o uso do carro na cidade, um absurdo!"

Mas basta fazer uma rápida pesquisa na Internet que é possível encontrar uma ampla gama de matérias e estudos mostrando que todas as metrópoles estão estudando ou implantaram medidas parecidas. (leia uma das melhoras análises da medida aqui)

A fatídica conclusão de estudos empíricos é que quanto menor a velocidade, menos o número de acidentes e menor ainda o número de acidentes fatais. Ponto final e acabou.

Do outro lado, a velocidade menor resulta em um fluxo mais uniforme e os tais "4 minutos a mais" são ilusórios, já que, na maioria do tempo, não se trafega na velocidade máxima, portanto, é possível que até se chegue mais rápido ao destino.

Eu não sou especialista em trânsito, mas basta pensar pra lá do vidro escurecido com filme do seu automóvel, olhar além do veolcimetro e baixar o volume da caixa de som que perceberá que as coisas fazem sentido.

Este é o barulho dos inconvenientes. 

O segundo exemplo é o da regulamentação do uso das sacolinhas de plástico e sua distribuição gratuita nos supermercados. Neste caso, admite-se, que não é exclusividade de São Paulo, é um debate girando em várias cidades.

Mas, depois de anos de gritas, disputas judiciais, acordos quebrados e refeitos, a prefeitura paulistana veio com uma regulamentação que obriga o uso de um só material na fabricação das sacolinhas, determina dimensões de cada uma, tenta casar a sua distribuição com organização dos resíduos e, acertadamente, proíbe a distribuição indiscriminada e gratuíta.

Apesar de positiva e necessária a regulamentação, a medida é no mínimo esdrúxula e não deu certo, precisando ser melhor debatida e revista.

Sim, sacolas maiores e padronizadas reduzem o número total, mas a questão da disposição final - as verdes para recicláveis e as cinzas para compostáveis - não funcionou muito. Não vejo qualquer distinção de uso na disposição final dos rejeitos e resíduos.

No entanto, o principal erro da regulamentação foi permitir apenas material 'renovável', fechando o leque para que só o plástico de cana de açúcar pudesse ser usado.

Na verdade, esta limitação olha apenas uma ponta do ciclo do plástico. A sua produção oriunda do processamento de cana de açúcar, sim, resulta em menos danos ao meio ambiente e emissão gases efeito estufa, melhorando e muito o ciclo pré-consumo em comparação à matéria prima vinda do petróleo.

Mas não resolve o ciclo pós-consumo, onde está o maior problema das sacolas. Ou seja, mesmo sendo feito de material orgânico originalmente, ainda é um plástico: as sacolas são de PET, PP ou PE. Material que contamina o meio ambiente, é difícil de degradar e, pelo peso das sacolinhas, quase impossível de reciclar já que não tem valor econômico pós-consumo.

A poluição das sacolas fere mais que a visão. Mata animais, infiltra no lençol freatico e impermeabiliza solos e aterros atrapalhando a decomposição natural.

Porque a prefeitura não determinou o uso de plástico compostável feito de fécula de mandioca ou resíduos agrícolas, tecnologia também detida por empresas brasileiras e cuja compostabilidade é mais alta?

Mas, depois de muita chiadeira do setor de plástico antes desta regulamentação, hoje há um silêncio sepulcral sobre o assunto, nos tribunais e nos jornais.

Ao contrário do trânsito, sobre o setor de plástico tenho algum conhecimento. No caso do plástico feito de cana de açúcar tem um principal fabricante no país, a Braskem que, por concidência é o principal patrocinador de entidades como Plastivida que promovem o uso do plástico, fomentam também a cultura da reciclagem, mas investem pesadamente contra qualquer regulamentação que possa reduzir o uso dos plásticos.

Este é o silêncio dos culpados.

Não gosto de clichês, mas, a realidade é esta: quando o paulistano vai para o exterior, acha as mesmas medidas uma maravilha, civilizatórias até.

Lá, anda a pé e xinga quem acelara em pista asfaltada. Aqui, xinga quem anda a pé e acelera em pista asfaltada.

Lá, paga em euros por sacolinha, que guarda e reúsa na maior tranquilidade, feliz por proteger o meio ambiente e deixar os centros europeus limpos. Aqui, se recusa a pagar em reais e entra na justiça para continuar poluíndo.


No fundo, ignoram que para chegar onde as cidades europeias chegaram, também houve dicussões, debates, oposição e finalmente a imposição do ente responsável.

Só que lá, não há tamanha judicialização, pois lá se reconhece as prerrogativas do administrador da cidade e, principalmente, lá há pluridade de opinião representada na mídia e em jornais dedicados a cobrir a cidade. No final, as pessoas não sobem em cavalo de batalha pois se sentem bem informadas, mesmo se não concordam com as medidas.

Naturalmente, se uma medida não der certo ou se um outro administrador for eleito, se muda.

Aqui, a presunção de culpa do administrador público é prerrogativa: ele é mal intencionado (só pensando na reeleição, oh meu deus! que crime), a administração públicaé é incompetente por natureza e imersuravelmente corrupta.

Em Londres, ou você compra ou lê o Daily Mail ou lê o Dialy Mirror se você é conservador ou mais à esquerda. Ou você lé o Times ou o The Guardian, e, se quiser quedar no centro, o The Independent.

Mas aqui a barragem de opinião divergente é opressora.

Das rádios, aos jornais. Das revistas às TVs. Só tem um lado: conservador. E por isso qualquer mudança é combatida, a não ser mudanças que exarcebam o liberalismo individualista que mata nossa (so)ci(e)dade.

Esta é a omissão do facinoras, pois estão matando o debate sobre nosso futuro ao fechar a porta para opiniões divergentes e preparar, sempre, o caminho da judicialização da política e das políticas públicas.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Uma cunha entre mim e a democracia

O Brasil virou uma Venezuela. Talvez faça tempo que tenha virado, mas hoje resolvi escrever sobre isso, pois não se sabe mais o que acontece no país.

Antes, era a campanha cega contra o presidente Hugo Chávez que fazia com que chegassem notícias e manchetes deformadas para nós. As imensas passeatas, as eleições e plebicitos, os programas sociais, o boicote ao país da indústria, tudo isso era deformado para termos uma visão de um país em caos. Eternamente em caos por causa de uma opção pela autodeterminação de uma nação soberana.

Não que discutir os rumos políticos e sociais da Venezuela seja prioridade, mas o que acontece lá é de suma importância para os movimentos do Brasil na política internacional e economia mundial para consolidar-se como potência mundial.

Mas, hoje, também não reconhecemos o Brasil.

Se anda na rua, e não sabemos que país é este.

Tudo está mediado de forma espúria.

Esta semana, fomos tomados pelas pedaladas do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, que encontrou algo do regimento da casa para respaldar o atraso e garantir a aprovação de uma das medidas mais simbólicas do retrocesso humanizador que estamos sofrendo: a redução da maioridade penal.

Pela fala dos deputados, não se anda na rua sem ser assaltado por um menor. Não importa se menos de 1% dos crimes contra a vida são cometidos por estes cidadãos, reconhecidos pela nossa constituição como tendo priodidade na proteção social.

Mas, como disse, isso é o forte simbolismo de algo mais profundo (não que não seja importante em si, mas a discussão é mais ampla).

Dormimos uma noite pensando uma coisa, e, de reprente, mudam a regra e perecebemos que a 'realidade' era outra.

O que Cunha fez foi casar os acontecimentos políticos com sua visão de mundo. Não se aceita que outros que não tenham a mesma visão conseguiram uma apoio suficiente para barrar o seu ponto de vista.

Do mesmo jeito é o que lemos nos jornais.

Viramos o país do desespero, da corrupção, dos desmandos. Não temos mais chão, não temos mais horizonte, não temos mais visão.

As manchetes se repetem dia sim e dia não, e são desmentidas dia não e dia sim, num esbofetar constante de nossa cara até nos fazer acreditar. Como um filme de holywood no qual o protagonista espalma o rosto de uma pessoa histérica para que ela saia da transe.

Mas, há quase 20 anos atrás, eu sabia que iria dar nisso ao pisar em uma redação de jornal pela primeira vez.

Vi que as redações dos nossos jornais são comandadas por jornalistas classistas que treinam profissionais saídos de escolas homogenizadas pela exigência do dilploma e... pasmem, são da mesma classe social. Oriundos das melhores faculdades, mas de uma classe que resolveu se esconder atrás de muros e portões fechados.

Mas destas torres de marfim, esta visão de país se alastra para outras classes, sem dar contraponto à realidade.

Do outro lado, as redes sociais e os blogs parecem começar a fazer um contraponto, mas não.

Mais de 70% do conteúdo das redes sociais replicam o que noticiam e opinam os jornais que não vêem o Brasil, do outro lado blogueiros assumem sua posições ideológicas e também publicam apenas o Brasil que acreditam ver.

No final, ficamos só, você e eu, a decidir o que é realidade.

Sair nas ruas, ver o que está acontecendo é o melhor remédio.

Como sempre digo, a realidade está em algum lugar entre o desespero da mídia empresarial e a trincheira do 'bem' cavada pelos blogueiros antagônicos.

E a verdade é que estamos desconstruindo um país.

Não estamos desfazendo o país de 12 anos de PT no poder, mas o país de lutas homéricas pelos direitos sociais de mais de meio século.

Enquanto isso, a população se vira.  A maioria rechaça o ódio e sabe, mais do que ninguém, viver sem nossas frágeis instituições.

Mas a democracia requer debate e, sobretudo, respeito às minorias para se fortalecer.

De todos os discursos daquela noite assombrosa, imposta pela vontade imperial do presidente da Câmara, o mais assustador foi o discurso de um deputado que xingou os que não concordaram com a redução da maioriadade penal de não serem brasileiros e, na sequência, disse que deveria existir uma unanimidade a favor da redução da maioridade penal.

Entre mim e ele existe um abismo. Entre mim e ele existe a democracia.

Eu não vou ser parte desta unanimidade que não vê país e, sobretudo, que não vê futuro.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Massacre

E se seu filho se tornar um bárbaro?
Não havia como escapar à conclusão: estes caras têm que morrer... do pior jeito possível.

Voltando ao início. De todos os assuntos do mundo, o professor amazonense, radicado em SP, resolveu comentar assassinatos e estupros no nordeste que devem ter sido recentemente noticiados nos programas policialescos.

Relatos pertubadores do pior que a humanidade já produziu. Dava para imaginar o gordão do Datena ou ouvir a voz nazal do Marcelo Rezende suplicando pela justiça bíblica.

Dava para sentir o escárnio pelos conceitos garantistas de nossa constituição.
E assim os relatos foram levando à conclusão que certos humanos não deveriam ter direitos. 

Só a oração e a reza para garantir a segurança de sua família, arrematou o professor.

De resto, nosso estado de direito, a ideia de recuperação de menores, o controle da fome persecutória do Estado, foi tudo jogado pela janela.

Não, não dá para ter outra conclusão diante de relatos de tamanha desumanidade. 

O que dizer? Comentar que hoje o Estado pode matar um criminoso, mas amanhã assassina um cidãado, que, mesmo inocente, foi condenado por um crime que não cometeu por erro de processo? Lembrar que justiça não é vingança, diante do medo e do sofrimento de familiares? Relatar, mais uma vez, o horror da mulher que foi linchada no Guarujá só porque ela 'lembrava' uma acusada de um crime hediondo pela Internet? Rever a dor dos familiares do brasileiro fuzilado pelas autoridades indonésias?

Não, o massacre era certo. A conclusão, lógica. A redenção, impossível.

Mas aí você se pergunta como, como pode que nos permitimos a julgar tudo pela exceção? 

O Brasil virou um lugar onde a exceção não mais comprova a regra. 

A exceção virou a regra, ajudado pela superficialidade e o sensacionalismo de uma TV irresponsável e sedenda por olhares estupefatos e não pensantes. 

O jornalismo não é mais instrumento para esclarecer, é ferramenta para condenar e punir. É desculpa.

E assim caminhamos a passos longos para a barbárie. 

E se fosse seu filho que tivesse se tornado em bárbaro vingativo, não pensante reagindo a descalabros históricos com o fígado?

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

José Dirceu Vs Veja II - Algo de errado

Há algo de errado quando abro meu Facebook e vejo convocação para uma marcha contra um veículo de comunicação. Neste caso é contra a Veja e sua suposta manipulação da informação.

O que mais me chama atenção é o fato do Facebook ser o reduto - e aqui arrisco generalizando - da classe média conservadora que, em geral, se informa e forma suas opiniões pela revista Veja da editora Abril. (veja aqui)

De fato, um grupo pequeno de 124 pessoas já confirmaram presença, provavelmente incluindo os 52 que criaram o evento. Dentre eles, um vereador de esquerda paulistano, Beto Custódio. Além do político, os perfis dos outros que pude ver são estudantes de universidades públicas do Rio e São Paulo.

Diria insignificante em termos de mobilização. Mas simbólico que um grupo de pessoas - com alto poder de influência - sinta-se ameaçado o suficiente para protestar contra um veículo de comunicação.

Suponho que a gota d'água fora a polêmica matéria de capa desta semana que tentou pregar no José Dirceu - o suspeito de sempre -  uma manipulação antirepublicana ameaçadora da democracia.

Eu mesmo escrevi sobre o tema (veja aqui) e há outras análises mais contundentes na web, principalmente nos sites de jornalismo incluindo o baluarte do debate sobre jornalismo, o Observatório da Imprensa.

Os editores e donos da Veja provavelmente dispensarão esta mobilização como sendo de pessoas aliadas ao ex-ministro querendo proteger algo inominável. Mas, é preciso também levar em conta que tal mobilização mostra que há espaço no mercado editorial para um jornalismo mais digno e que atenda aos anseios de uma camada da população que não se alinha com as visões e posicionamentos do maior semanário do país

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Nem anjos nem demônios: O caso Zé Dirceu Vs Veja

Vou meter meu bedelho no caso Veja X Zé Dirceu. Não deveria, mas há uma coisa que está me incomodando muito neste debate (embate) entre a mídia tradicional conservadora, os políticos envolvidos e os blogueiros que alinham-se contra a mídia: o moralismo.

De todos os lados, há um moralismo condenatório absurdo e, no final, a grande vítima não é nem a Veja e nem Zé Dirceu. A grande vítima somos nós, o público.

Antes de mostrar como chego a esta conclusão queria botar alguns pingos em alguns is.

1. É dever da imprensa usar todos os meios possíveis para levantar informações pertinentes e de INTERESSE PÚBLICO.

2. José Dirceu, apesar de estar sendo julgado e de ter seu direitos políticos parcialmente suspensos até 2015 - leia-se candidatar-se a cargos públicos -, tem o direito, como qualquer cidadão, de participar e atuar no jogo político.

Dito isto, o resto é mera maquiagem, politicagem barata e moralista.

Do lado da Veja, como jornalista, não posso condenar-la por ter usado meios ilegais de obter informação. Todo jornalista sabe que a regra de ouro de uma boa reportagem é...

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

São Paulo, uma cidade sem notícia


Resolvi hoje abordar a cobertura da cidade de São Paulo pelos principais jornais, pois, além de não ter atualizado esta página desde o mês passado, fiquei estupefato com uma manchete do Jornal da Tarde, um dos dois principais jornais que cobrem minha cidade e acordei com um helicóptero de uma emissora de TV ou rádio estacionado acima de minha casa filmando o trânsito na marginal.

A manchete do JT diz que piratas oferecem filmes em catálogo para evitar fiscalização. Pasmem! Tá aí uma coisa que os ossos de todos os paulistanos já sabia. Basta andar nas calçadas da cidade e, principalmente, no centro do contrabando da informação e entretenimento digitalizado, a rua Santa Efigênia. Não vi a capa do Diário de SP, o outro jornal da cidade, pois a banca onde estava não o exibia.

Uma rápida passagem pelo sites destes jornais, nas abas de Cotidiano e São Paulo da Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo respectivamente me mostrou que São Paulo é quase uma cidade sem notícia.

Temas em destaque: assassinato duplo na Rua Oscar Freire (com foto de um modelo metálico envolvido); estacionamento a R$12...

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Sobre aeroportos, banheiros e conservação de água

Antecipei ontem que iria escrever sobre água nos banheiros aeroportuários do Brasil. Hoje parece um dia adequado, pois, pela primeira vez na história do país, o governo concluiu a concessão para a construção e o gerenciamento de um aeroporto comercial para a inciativa privada.

Houve grande disputa com um ágio de 228%, segundo O Estado de S.Paulo, pelo direito de explorar o aeroporto de São Gonçalo do Amarante em Natal (RN) principalmente pelas receitas que terão com o grande fluxo de passageiros na Copa em 2014 e no futuro. Todos que precisarão usar banheiros.

Portanto, voltando aos banheiros, o alerta foi dado por uma empresa de engenharia que comissionou um estudo sobre o desperdício de água nos lavatórios e pretende oferecer soluções, pegando carona na Copa 2014. Quando esta pauta me chegou por meio de um release enviado por e-mail achei engraçado, depois, esperto e finalmente, interessante, pois também começa hoje a Semana Mundial da Água em Estocolmo onde gestores públicos, pesquisadores e representantes de empresas vão focar em buscar soluções para os problemas de suprimento nos grandes centros urbanos.

A preocupação é clara, pois caminhamos para ter a maioria da população mundial vivendo em cidades. Conforme havíamos antecipado na edição de março/abril (a primeira) da Revista Sustentabilidade impressa, as discussões serão centradas na busca de soluções técnicas e de gerenciamento.

Segundo o executivo do SIWI, Jens Berggren, que entrevistamos para a edição, para garantir o suprimento de água nos grandes centros é preciso montar um tripé de cooperação entre governos, empresas e sociedade para garantir o acesso a este bem. "Aplicando o conhecimento que temos podemos reduzir em um quinto a mortalidade infantil, ou seja, salvar a vida de 2,2 milhões de crianças por ano", disse Berggren.


segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Os ricos querem pagar mais impostos...

Eu ia postar este comentário na página deste blog sobre jornalismo e política, mas acho que cabe mais aqui, na economia, pois é um debate importante de impostos (de novo!) e ideologia do qual fui alertado por uma matéria no The Observer neste final de semana.

No Brasil, o debate pouco repercutiu, por razões óbvias, mas o registro do articulista do jornal britânico é que a direita está cada vez mais desiludida com a própria ideologia, pois estão vendo que (pasmem!) a autoregulamentação não funciona.

Julian Coman, do The Observer, mostra que políticos, líderes empresariais e jornalistas alinhados com o campo da direita conservadora começam não só a pedir mais controle dos governos, mas também percebem que deve-se começar a pensar num novo sistema de impostos que onere o sistema financeiro internacional e os mais ricos.

A mente de um Hacker



Se seguirem o link no Youtube, vão poder assistir à entrevista completa. Muito interessante as ideias do homem. Mas o que mais tem de importante é que, em primeiro lugar, ele mostra a capacidade dos Hackers de investigar e produzir conteúdo fuçando dados e que estão, de fato, construindo programas e aplicativos que permitirão aos meros cidadãos, investigar os poderosos.

Em segundo lugar, a percepção de Markun é de que a Internet não é livre. Quem acompanha o debate do ponto de vista do Software Livre já está familiarizado com este argumento. Ou seja, as tecnologias, os links, os cabos e os satélites são todos controlados por mega empresas de telefonia e comunicações. Além disso, cada vez mais, os programas para acessar a Internet também estão nas mãos de grandes empresas...

domingo, 17 de julho de 2011

Obscurantismo na cobertura política em SP

Sensacionalismo puro o título do Estadao.com.br:

Em 2011, paulistanos pagaram R$ 514 mil por lei aprovada

O link é para uma matéria do Jornal da Tarde com um título um pouco menos obscurantista: 

Câmara aprova só 10% de leis dos vereadores

O que me incomoda nestas manchetes é o óbvio, pois qualquer cidadão que acompanha política, como deveriam os repórteres do jornal, sabe que no sistema atual quem manda é o executivo. É um problema estrutural da nossa política. Além disso, existe uma grande distância entre projetos propostos e aprovados.

Para piorar, medir o desempenho de parlamentares apenas pelos projetos aprovados - e só os da própria autoria - beira no niilismo.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Obras anti-enchentes atrasam... novidade?

Hoje é dia da Bastilha na França, quando os 'Sans-culottes' derrubaram o símbolo-mor da opressão monarquista, deixando-nos memórias da velha prisão monolítica de pedra apenas nos quadros, desenhos e gravuras.

Uso isso como uma introdução e para marcar a data, pois continuando a saga do Rio Tietê, ontem recebi e-mail sugerindo fonte: Um especialista querendo comentar sobre os atrasos nas obras anti-enchentes.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Jornalistas ou administradores de redes sociais?

Xico Sá escreve bem. Coloca bem colocado como as redes sociais mudaram a nossa vida de jornalistas. Ele conclui que nunca fomos tão desnecessários. Concorde ou não com ele, mas desde que Twitters, Facebooks, LinkedIns e etc. surgiram nossa vida nunca mais foi a mesma.

Hoje, 'interlocutamos' o tempo todo. E-mail e cartas são coisas do passado. As respostas e os comentários têm que ser em tempo real. Tempo para o Internauta poder te captar na sua timeline. E não podemos mais ficar aguardando os clichês sairem da rotatória. Não. Temos que noticiar e repercutir ao mesmo tempo.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Wikileaks, Cuba, corrupção e silêncio

Enquanto só blogs 'sujos' brasileiros comentaram o estrago que o Wikileaks fez aos dissidentes cubanos financiados com dinheiro dos contribuintes norte-americanos, a imprensa nacional ficou calada.

Artigo de dissidente cubano postado este final de semana mostra que a oposição começa a pensar em uma mudança de estratégia que busca construir bases sociais dentro de Cuba, e não pregar para os convertidos de sempre que moram fora da ilha.